As montanhas
Complexo do Pico do Paraná na Serra do Ibitiraquire — Foto: Lucas Pontes.

Pilar II

O Teto do Sul

A muralha verde do sul.

Antes de existir Curitiba, antes de existir a estrada de ferro, antes de existir qualquer trilha demarcada ou parque estadual, existia a parede. A Serra do Mar não é apenas uma elevação no terreno. É uma muralha verde que separa o planalto do mar. Quem vem do litoral e olha para o oeste vê uma parede que parece intransponível. Quem vem do planalto e desce em direção ao litoral sente o ar ficar mais úmido, a vegetação mais densa, a estrada mais sinuosa. No Paraná, essa muralha atinge seu ponto mais dramático. Diferente de outros estados onde há uma planície entre a serra e o oceano, aqui a montanha deságua diretamente na baía. É um encontro brusco entre o verde da floresta e o azul da água — entre o continente e o mar. Dessa parede emergem picos que desafiam o céu. O Pico Paraná, com 1.877 metros de altitude, é o ponto mais alto de toda a Região Sul do Brasil. O teto do sul. Ao seu lado, outros gigantes: Pico Caratuva, Pico Itapiroca, Pico Siririca, Pico Marumbi. Uma cordilheira de granito e gnaisse esculpida por milhões de anos de erosão. Quem sobe esses picos não encontra apenas uma vista. Encontra vento frio mesmo no verão. Encontra silêncio. Encontra uma visão da Baía lá embaixo, pequena como um brinquedo. Mas a montanha não é só para quem sobe. Ela também é morada. Morada das onças-pardas que ainda caminham por essas florestas. Morada dos muriquis, os maiores primatas das Américas. Morada dos papagaios-de-cara-roxa que cruzam o céu ao entardecer. Morada de comunidades que vivem em seu sopé — e que veem a montanha como território, não como cartão-postal. Nesta seção, vamos subir a serra. Não como turistas que buscam uma foto para o Instagram, mas como observadores atentos — atentos à geologia, à história, à biodiversidade, às disputas e às contradições. Vamos falar sobre a ferrovia belga que atravessa a montanha com túneis e pontes — e sobre os trabalhadores que morreram na sua construção. Vamos falar sobre o Pico Paraná como símbolo de superação — e também como símbolo de privilégio (quem tem tempo, dinheiro e preparo físico para chegar lá em cima?). Vamos falar sobre as trilhas — e sobre quem foi expulso do seu território para que essas trilhas se tornassem "áreas de preservação". Porque, assim como a Baía, a montanha não é um lugar estático. É um organismo vivo — em movimento, em disputa e em constante transformação. E, de certa forma, todas as histórias que contamos neste projeto também passam por ela. Porque é Entre a Baía e o Céu que a Litoral Selvagem vive.

"Documentar este lugar é uma forma de impedir que ele desapareça duas vezes — primeiro do mundo, depois da memória."
Paisagens da Serra

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