O litoral do Paraná já foi descrito neste projeto. A Baía, com suas águas calmas e sua história violenta. As Montanhas, com seus picos que tocam o céu do Sul. O Selvagem, com sua fauna e flora que resistem apesar de tudo. As Raízes Costuradas, com seus povos, seus caminhos, suas feridas.
Mas falta uma pergunta.
A pergunta mais importante de todas:
Quem está garantindo que tudo isso continue existindo?
Porque nada disso é eterno. A Baía pode ser dragada até virar um canal sem vida. As Montanhas podem ser loteadas para virar condomínio de luxo. O Selvagem pode ser encurralado até não ter mais para onde fugir. As Raízes podem ser apagadas de vez — e a história oficial pode vencer.
Não é alarmismo. É o que já está acontecendo.
Mas, ao mesmo tempo, tem gente que está segurando a linha.
Os Guardiões não são super-heróis. Não usam capa. Não têm patrocinador. Não aparecem no jornal. Muitos deles nunca serão reconhecidos em vida.
São:
Pescadores que conhecem cada curva da Baía há 50 anos — e que, mesmo vendo o peixe sumir, continuam remando.
Mestres do fandango que ensinam os netos a bater a caixa e dançar a xiba — porque se eles não ensinarem, ninguém mais vai fazer.
Benzedeiras que guardam na memória as rezas que curam — e que sabem que, quando elas morrerem, aquelas rezas podem morrer junto.
Construtores de canoas que ainda sabem escolher a árvore certa e esculpir o tronco com fogo e enxó — um ofício que não está em nenhuma faculdade.
Os Guardiões também estão nas instituições.
Pesquisadores que poderiam estar em laboratórios na Europa, mas preferiram ficar aqui — porque aqui é onde a pesquisa precisa estar.
Arqueólogos que passam semanas escavando sambaquis sob o sol, removendo concha por concha, para entender quem viveu aqui 5 mil anos atrás.
Biólogos que monitoram os botos-cinza e sabem, pelo som, quando um deles está estressado por causa do barulho do Porto.
Professores que todo dia entram em sala de aula e contam a história que os livros didáticos omitem — arriscando o próprio emprego.
Museus como o MAE, em Paranaguá, que guardam os artefatos dos sambaquis e as cerâmicas dos carijós — e que fazem questão de compartilhar a curadoria com os próprios indígenas.
Os Guardiões, acima de tudo, estão nas comunidades.
Nas lideranças Guarani Mbya que, em sete aldeias espalhadas pelo litoral, mantêm viva a opy, a casa de reza — e o tekoha, o território onde se pode viver como Mbya.
Nos quilombolas que recusam sair da terra onde seus ancestrais viveram e morreram — mesmo cercados por especulação imobiliária e violência.
Nos pescadores artesanais que se organizam em colônias e associações para resistir à pesca industrial e ao avanço do Porto.
Nos agentes de saúde que pegam barco na maré cheia para atender uma família na Ilha das Peças — porque o SUS não chega lá de outra forma.
Nos líderes comunitários que organizam mutirões, reuniões, denúncias, festas, protestos

