Entre a Baía e o Céu, existe um território que nunca foi domesticado.
Não por falta de tentativa.
Mas porque a vida, quando é selvagem de verdade, não obedece.
Da lama do mangue à copa das araucárias.
Desça a maré. Olhe para o chão escuro, fétido, vivo. Ali, o caranguejo-uçá escava sua toca. Pequenos peixes entram com a água salgada e saem com a doce. As raízes dos mangues respiram mesmo submersas.
Suba alguns metros. A paisagem muda. A Mata Atlântica fecha o dossel. As árvores se abraçam por cima. Bromélias e orquídeas pendem dos galhos como joias verdes. O muriqui, maior primata das Américas, balança entre os troncos com uma lentidão que parece dança.
Suba mais. A floresta se torna mais baixa, mais retorcida. O vento começa a soprar frio mesmo no verão. Aqui, o papagaio-de-cara-roxa — que só existe neste pedaço de litoral — constrói seu ninho. A preguiça-de-bentinho se camufla entre as folhas. A onça-pintada, se tiver sorte (ou ela quiser), deixa rastros na lama.
Até o topo. Acima de 1.500 metros, a vegetação é rala, as pedras aparecem, o céu parece mais perto. E ainda assim: líquens coloridos colam nas rochas. Pequenos pássaros resistem ao frio. A vida não desiste.
O Selvagem não é um postal.
O Selvagem é o que sobreviveu.
As florestas da Serra do Mar perderam mais de 85% de sua cobertura original. As onças foram caçadas. Os botos-cinza perderam parte da capacidade de se ouvir por causa do barulho dos navios. O mico-leão-cara-preta — endêmico, raro, ameaçado — vive hoje em fragmentos de mata cercados por bananais e pastos. Mas ainda estão aqui. Não porque o ser humano deixou. Apesar do ser humano.
Do mar ao céu.
Na Baía, os botos-cinza saltam ao entardecer. As tartarugas-verdes emergem para respirar perto da Ilha das Cobras. Os guarás (íbis escarlates) pintam os manguezais de vermelho.
Na encosta, o mico-leão-cara-preta — que só existe neste litoral — se desloca entre os galhos finos. O muriqui, ameaçado e majestoso, vive em grupos familiares que ensinam seus filhotes a comer folhas que nenhum outro animal consegue digerir.
No alto, o papagaio-de-cara-roxa cruza o céu ao entardecer, indo das florestas onde se alimenta para as ilhas onde dorme. O gavião-pombo-pequeno, outro endêmico ameaçado, sobrevoa os picos em busca de pequenos mamíferos.
Todos eles vivem Entre a Baía e o Céu. O mesmo território que os humanos disputam. Os mesmos rios, as mesmas florestas, as mesmas águas. A diferença é que eles não têm escolha.
"Documentar este lugar é uma forma de impedir que ele desapareça duas vezes — primeiro do mundo, depois da memória."

